sábado, 29 de março de 2008

015 Outono


Tinha a tocar no leitor de cassetes do meu Fiat Panda uma música da Sétima Legião, um instrumental onde se andava à procura do Outono, estavamos a meio da última década do século XX.

Líndissima a música, o Outono, que entretanto se foi perdendo, para que, cada vez mais, nos concentremos no passar do Inverno para o Verão.

Mas isso começou a acontecer muito antes de ter carta de condução ou sequer de pensar que a minha vida teria o sentido figurado que tem hoje e o Outono fosse desaparecendo na moda ignóbil do aquecimento global.

Nos tempos em que fazia a maratona pelo beijo na boca da colega de turma que não me passava cartão por nada deste mundo, talvez se fosse mulher ela já me olhasse com outros olhos e me deixasse beijá-la, afagá-la, mimá-la.

Tinha uma secreta esperança que me podia sentar à espera que os estimulos se arranjariam com as tempestades, os furacões e eu nada precisaria de fazer. E tudo me sorriu sem esforço nenhum quando já nem dava a devida atenção.

Mas o feio parecia-me o Céu, claro que na altura nem usava óculos. E as folhas começavam a cair das árvores e conhecia sempre o melhor caminho para me desviar do Sol, para, em silêncio, destruir o pleno Verão que deveria ser o amor no meu coração, mas que não passava de um dia de catastrofe em alerta vermelho.

Como prémio de consolação passei directamente da queda das folhas para o frio glaciar de um Inverno sem que houvesse conseguido a protecção necessária para um coração que se foi desgastando mais depressa sem que a cura estivesse prevista.

Felizmente o Inverno passa e chega a Primavera, tempo de renascer para a vida, para o amor que nunca tinha assentado arraiais cá bem no fundo do meu ser.

E hoje, mesmo no Outono e as folhas das árvores espalhadas pelo chão, consigo acreditar no amor, pela vida e quem sabe um dia o possa demonstrar sem medo de enfrentar um qualquer Inverno rigoroso, de almas desérticas.

Entretanto escrevo-te sem saber por onde andou o Outono, muito menos tu e quem mais quer saber?

1 comentário:

Dolores Quintão Jardim disse...

Hoje resolvi passear por aqui..


Vou ler tudo que conseguir ler.

Não pode ser tuo de uma vez..

Não posso perder nada ..é muito bom este meu amigo.

Parabéns amigo.


Beijinhos do lado de cá!