quarta-feira, 6 de junho de 2007

Atropelados



dedicado aos que partiram para sempre nas estradas


Um dia resolveram mudar-se
Pegaram no passado e deixaram-no esquecido
Seguiram com os filhos para uma nova vida
Novos horizontes, novas alegrias

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Apenas mais um copo para a despedida
Afinal uma idade respeitável, 50 anos
Parecia que acalmava o espírito da ira subjacente
Um sorriso atravessou-lhe a face enrugada

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Entraram todos dentro do carro
A maturidade na família adivinhava futuro risonho
As filhas adolescentes sonhavam os sonhos imberbes
Até chegarem ao destino final apenas umas horas

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Sempre fora algo irresponsável com a bebida
Apesar da sorte o acompanhar pela noite fora
Sempre se irritara com os jovens incautos
E esta noite uma ultrapassagem mal medida

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A viagem foi tranquila, todos os sonhos couberam no espaço exíguo
Os mais velhos tinham a preocupação da arrumação
Dos pormenores banais de uma mudança por fim no destino
E saíram para a rua, para a noite calma e fresca

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O homem de meia idade enfureceu-se
Perante a brutal desonestidade do outro condutor
Que lhe feriu o orgulho macho superior
E perseguiu tresloucado o infractor do seu código pessoal

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Os quatro cá fora, os pais a organizarem a entrada no novo sonho
Ambas as meninas a assistirem
E lá longe a rua iluminada
Na extensão da estrada toda

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Tresloucado, com a fúria assassina no auge
Nem se lembrou de olhar para os peões
Para a interrupção de sonhos de uma vida normal
E embateu com toda a violência
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As meninas gritaram com toda a força
A ajuda pelas almas que já pairavam em desespero
Os vizinhos ouviram, como ouvem sempre
E o assassino fugiu ensanguentado, mas vivo
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Ficou desorientado, tinha acabado de provar o que queria
Pelas linhas tortas da profunda injustiça
Mas fugiu a cambalear
A policia o apanhou

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E as meninas ficaram sem pais
O sonho de uma nova vida
Daqueles planos normais
Tudo destruído para sempre

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Foi encostado pelo polícia enfurecido
Cheirava a álcool mas estava muito combalido
O suficiente para não lhe ser feito o teste
' Vai lá para casa que só mataste dois '

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