domingo, 7 de novembro de 2010

como tem tempo tempo não tem pressa

1.
fala-me disso
do meu lado
qualidades
alarvidades
que o tempo apaga
e nem um milhão de anos
as torna verdades
vai-te foder!


2.
tens essa fúria
de levantar vozes
e seguir no gozo
sem que ela siga
o mesmo orgasmo
e nem te dás conta
da merda em que habitas
do desdém que possibilitas
sai de casa
abandona essa pose irritante
afoga-te
desaparece
não temos pressa
de te ver
de sequer saber
que cá andas...



3.
mal e mal e mal
um forte desejo de conquistar
os morangos
sem doce
nem caroço
para te engasgares
porém não pares de lutar
o céu sempre tem tons de azul
no meio desse negro impoluto



4.
os pecados são dados a escolher
entre vitórias impossíveis de esconder
ainda assim a mentira
a necessária partitura
de sorrisos estúpidos
que nem rugas levantam
não tens sequer tempo para vibrar



29-10-2010

vibrante no céu aberto

1.
sabes não há tempo
para ver o Sol
as letras pequenas
dos contratos
tudo me ocupa espaço
e o coração
depois pára
e como pagar
as multas
os desvarios
as temperanças
de quem precisa
de mim de ti e então
desculpa lá
o meu silêncio
a demência dos dias
de chuva e o incenso
para afastar os fantasmas
só frustração...


2.
o céu inclinado
sobre as bestas
afogadas
na aberta sensação
de cheiro a merda
talvez amanhã
que hoje não há tempo
não há buraco
não tapo
não há rabo
não há trapo
que limpe
o esgoto
vibrante
no teu ventre aberto...



3.
para tu veres
os passos
as anchovas
a vinte e tal
por cento
e centos de contos
pelo ralo abaixo
e mostra-me essa realidade
do amanhã
das criancinhas aos saltos
no vazio
e as anchovas
a vinte e tal por cento



4.
por certo
o assalto
das bolsas furadas
sempre as mesmas enxurradas
se abraçam
ao fantasma
que vive sempre ali
agarrado ao teu nada
vibra
vibra doido
e tu até sorris
sabe-te bem
nem sabes o quê...

bom servo das leis fatais

1.
na boca
um desejo viciante
de saliva
demorada
com gemidos
e minada
de fervor
dentro de ti
de mim 
em viagem
na descoberta
dos instintos inquietos
sem que a morte
incomode o orgasmo


2.
falta a mensagem
aquele momento
insaciável
e depois nada
apenas o calor
suor em bica
e nada para dizer
apenas adeus
e desejos de sair
sem passar
aconchegar o frenesim
numa qualquer memória
inquieta
que a doçura não desperta



3.
saindo da verdade
aconchegas as dores
num vazio perfeito
e esqueces
os momentos atrozes
para um beijo perfeito
salivando as consequências
imediatas de ressuscitar
as suposições do teu amor
pelo cheiro
inebriante queda
em abismos de sensualidade
e até voltas à realidade
com um sorriso
em lábios saciados
e corpo abandonado
a um prazer infinito
e até morres feliz!



4.
aparências de prazer
sem continuidade
nada se atravessa
porque não
tinha necessidade
nem vontade
apenas sorria
mas via-lhe a maldade
ainda assim levantaram voo!



escrito em 15 de Julho de 2010

tudo é nocturno e confuso

1.
esperando nas alturas
planando como um pássaro
todos sabem
está morto
mas ele não sabe
e quem morre assim?
esperando e vendo
o azul do céu
em tons de cinza
enegrecido
em tons de luar
vampirizado 
em tons de nada
e deus por onde anda?


2.
falava-se da independência
dos projectos e da paz
a merda solta
noutro planeta
e todos felizes
mas o Sol pôs-se
e tudo voltou a ser negro
uma confusão crónica



3.
os sinos tocaram
os bois fugiram
e as velhas saltaram
o demónio solto
sem saias ou tédio
noite estrelada
apenas orgasmos e inquietação



4.
e o desgaste
das princesas
em pixels e cara lavada
dinamite na boca
e escuridão na alma
apenas aparência
de inferno sem chamas



escrito entre Maio e Julho de 2010

que a minha consciência de ilusão

1.
fugia de algo
a correr sem alma
o corpo abandonado
a uma velocidade trepidante
e a vida era assim mesmo
e fugia cada vez mais
depressa e sem saber
o porquê de tanto medo


2.
do outro lado
seguro apenas o vazio
apesar das lágrimas
do adeus sem deus
apenas raiva
muito ódio comprimido
sementes do diabo à espreita
e fumei outro charro...



3.
fora de serviço
sem controle definido
corre corre que não te esperam
a fata morgana
e vida normal nem vê-las...



4.
o mundo está azul
os corpos bóiam
e era tudo a brincar
apenas apinhados
buscavam emprego
pura ilusão





escrito em Maio de 2010

mentiras quase inocentes

1.
todos os dias te quero
te desejo
te amo
e te fornico
tal como tu a mim
ainda assim
não sonhamos juntos


2.
ainda agora chegaste
nos perdemos em abraços
sem fraternidade
apenas gosto
e já te foste
na barca do velho Caronte



3.
na noite fria
sem sexo a arder
vozes a gemer
apenas tortura
transformamos o amor
em doses vampíricas
de sedução intensa
até mais nada restar
senão a dor eterna
de nos amarmos
nas trevas da solidão



4.
lá em baixo
não escuto o pranto
o adeus sentido
para sempre vivo no coração
de que me vale essa chave
enquanto o corpo apodrece?



escrito em Maio de 2010

terça-feira, 24 de agosto de 2010

eternamente excluídos

1.
os olhos brilhavam
num vazio imenso 
e buscavam
algo mais que 
apenas dor
uma cor
um ardor
sementes de desejo


2.
sem alegria
entre o betão gasto
fugindo daqueles drogados
amaldiçoados pelo tempo
forjados num fosso
esquecido do inferno
esperando alucinados
pelo Apocalipse



3.
dentro da igreja
todos sentados
em pose de oração
subliminar tentação
e o senhor que chegava
humano reles e pecador
e beberam de um cálice
o do suicídio colectivo



4.
pétalas gastas
sem memórias de cor
saltos de alegria
ou amor
apenas um grito
lancinante de dor
num campo deserto
de vida



Abril de 2010